Em Curitiba, o ato está marcado para domingo (8), com concentração às 09h00, na Praça Santos Andrade.
O Dia Internacional da Mulher vai além de uma simples celebração ou de uma data simbólica sem significado político. Sua origem está relacionada às lutas das trabalhadoras e à busca por direitos civis e participação política. Mais do que lembrar conquistas formais, o 8 de março convida à reflexão crítica sobre as desigualdades de gênero persistentes. Entre essas desigualdades, o feminicídio se destaca como a manifestação mais grave de uma série de violências que começam em pequenas desqualificações e podem terminar na morte de mulheres.
No
Brasil, muitos ainda veem a autonomia feminina como uma ameaça. Em um país com
herança escravocrata, patriarcal e racista, mulheres que decidem sair de
relações abusivas ou afirmar sua independência muitas vezes enfrentam
violência. A estrutura colonial organizou o país segundo categorias de raça,
gênero e valor econômico dos corpos. Mesmo que esse sistema tenha sido superado
legalmente, suas marcas continuam presentes na cultura e na sociedade. Assim,
negar controle, posse ou submissão é entendido como um ato de resistência
contra uma ordem que historicamente legitimou a dominação masculina.
Nesse
contexto, o feminicídio pode ser visto como uma expressão atual de uma dinâmica
social que considera a morte de certos corpos menos impactante para a
sociedade. Portanto, a herança da escravidão não pertence ao passado distante;
ela ainda contribui para as desigualdades que existem hoje.
Os
números recentes evidenciam a gravidade do cenário. Segundo o Relatório Anual
de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de
Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL) e divulgado pela
Agência Brasil, o país registrou 6.904 vítimas de feminicídio consumado ou
tentado em 2025, sendo 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, o equivalente a
quase seis mulheres mortas por dia. O relatório aponta ainda aumento de 34% em
relação a 2024, quando houve 5.150 registros. Esses dados não representam
apenas estatística do ponto de vista criminal, revelam a persistência de uma
estrutura social que falha sistematicamente em proteger mulheres da violência
letal.
A
análise do período contemporâneo evidencia que discursos políticos e decisões
institucionais impactam diretamente a dinâmica da violência de gênero. Em 2017,
o então deputado Jair Bolsonaro classificou o feminicídio como mimimi e sugeriu que, com a população
armada, haveria apenas homicídio. Durante seu governo (2019–2022),
consolidou-se um discurso público marcado pela deslegitimação das pautas
feministas e pela relativização da violência contra mulheres.
Além
do campo discursivo, constataram-se efeitos materiais na destinação de recursos
para políticas públicas. Nos governos Temer e Bolsonaro, especialmente, vimos
uma menor alocação de recursos para o enfrentamento à violência contra as
mulheres em uma década.
O
fenômeno estrutural em que a retração do Estado em áreas estratégicas de
proteção social compromete redes de acolhimento, campanhas educativas e
mecanismos preventivos. Soma-se a isso a promoção ao armamentismo e a ascensão
de discursos ultraconservadores que rejeitam a perspectiva de gênero sob o
rótulo de ideologia. Como resultado, reatualizam-se papéis tradicionais
rígidos, reforçando dependências econômicas e culturais que ampliam a
vulnerabilidade feminina.
Nesse
contexto, é fundamental corrigir um equívoco recorrente no debate público: a
crença de que a violência contra a mulher está circunscrita aos setores
socialmente mais vulneráveis. Essa visão simplificadora compromete a
compreensão do caráter amplo da violência de gênero. Um exemplo que ilustra tal
abrangência é o caso de estupro coletivo ocorrido na zona sul do Rio de
Janeiro, envolvendo agressores vinculados a instituições de ensino
reconhecidas, como a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e o
Colégio Pedro II, além do filho de ex-subsecretário estadual.
Embora
dados estatísticos apontem maior incidência de feminicídios entre mulheres em
situação de vulnerabilidade, a misoginia e as práticas de intimidação perpassam
todos os estratos sociais, inclusive se manifestando em ambientes de poder
político e econômico.
No
âmbito do Congresso Nacional, observa-se que o Brasil ainda não contou com uma
mulher na presidência da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, o que
reflete a persistente predominância masculina nas estruturas institucionais de
poder. No Supremo Tribunal Federal, apesar de avanços relevantes, a
participação feminina permanece historicamente restrita. Ressalta-se, também,
que mulheres em posições de liderança tendem a ser submetidas a escrutínio
rigoroso e a críticas desproporcionais. O histórico da ex-presidente Dilma
Rousseff exemplifica tal dinâmica: ao assumir a chefia do Poder Executivo
nacional como primeira mulher, enfrentou um processo de impeachment
caracterizado por intensa oposição política e, durante seu mandato, foi alvo
frequente de críticas parlamentares e midiáticas, as quais frequentemente
ultrapassaram o debate político para questionar aspectos de sua liderança.
É
relevante destacar que as nomeações de mulheres em cargos de alta
responsabilidade no Estado brasileiro ocorreram majoritariamente em governos de
orientação progressista de esquerda, demonstrando uma valorização mais
explícita da participação feminina em espaços decisórios. Como parte das
iniciativas institucionais de enfrentamento à violência contra mulheres, o
governo federal lançou, em 4 de março, em Brasília, o Pacto Nacional de
Enfrentamento ao Feminicídio. A iniciativa reúne os Poderes Executivo, Legislativo
e Judiciário, marcando um novo patamar de reconhecimento estatal acerca da
violência contra mulheres e meninas enquanto problema estrutural, histórico e
urgente.
A
luta feminina, desde o século XIX, tem buscado o reconhecimento pleno da
dignidade humana.
A
promoção da igualdade de gênero exige ações além da legislação existente,
demandando investimentos contínuos em políticas públicas integradas nos campos
essenciais da formação humana, como educação, cultura, comunicação e produção
de conhecimento, orientadas pela perspectiva da equidade de gênero. Também se
faz necessário o fortalecimento institucional de redes de proteção, o
enfrentamento efetivo do racismo e o fomento de mudanças culturais capazes de
desconstruir dinâmicas históricas relacionadas ao controle sobre o corpo
feminino.
Dessa
forma, o Dia Internacional da Mulher transcende celebrações simbólicas ou
homenagens anuais, consolidando-se como espaço fundamental para a reflexão
sobre os desafios atuais e a necessidade de transformação das estruturas
sociais, ampliando a presença feminina nos espaços de poder e superando, de
maneira definitiva, padrões históricos de violência de gênero.
Nesse
sentido, a Articulação Nacional da Marcha de 8 de Março apresentou ao
governo federal um manifesto com as pautas de
reivindicações deste ano. Além das já conhecidas e reiteradas, como a
garantia de direitos básicos e a legalização do aborto, os movimentos se
posicionam contra o imperialismo, as tecnologias a serviço da
extrema-direita e os padrões de violência em todo o mundo, da Venezuela ao
Oriente Médio.
No documento
entregue, na quinta-feira (5), à ministra das Mulheres, Márcia Lopes, a
Articulação Nacional da Marcha de 08 de Março declarou que “a luta das mulheres
nasce da nossa capacidade histórica de auto-organização” e reafirma o
caráter internacionalista da mobilização. Citam as interferências dos
Estados Unidos na forma de governar de outros países, ameaças bélicas e ataques
cibernéticos como “formas de dominação colonial que aprofundam a
fome, a exploração capitalista patriarcal e racista”.
Declaram
que:
“Estamos
nas ruas pela vida das mulheres trabalhadoras da cidade, do campo, das
florestas e das águas, pelas mulheres negras, quilombolas, indígenas, lésbicas,
bissexuais, transexuais e travestis, com deficiência, mães solo, atípicas, em
situação de rua, atingidas por barragens, privadas de liberdade, mulheres de
tradição de matriz africana, religiosas ou não, migrantes, jovens, idosas e
meninas”.
O
documento traz ainda protesto contra o racismo, a violência policial, a
intolerância religiosa, as tentativas de controle sobre os corpos femininos
e a insegurança alimentar. Também compartilham suas preocupações em
torno da precarização no mercado de trabalho, esfera que atualmente tem
provocado reações populares intensas, com as reivindicações pelo fim da escala
6×1.

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