Como
Paulo Freire, Frantz Fanon, Antônio Gramsci e Pierre Bourdieu contribuem para a
compreensão da persistência da injustiça
Recentemente,
ao realizar compras em um supermercado, fui atendido por um rapaz, refugiado
cubano, que reside em Curitiba há aproximadamente seis meses. Iniciei uma
conversa sobre as condições de vida em Cuba, e ele relatou algumas das
dificuldades enfrentadas, que o levaram à decisão de imigrar. Abordei a
complexidade do embargo econômico norte-americano vigente há mais de 60 anos,
expressando minha percepção de ser este um obstáculo significativo ao progresso
social cubano. O interlocutor, entretanto, pontuou que o embargo funciona como
justificativa utilizada pelo governo local para encobrir sua falta de
alternativas eficazes ao desenvolvimento da ilha.
Esse
diálogo motivou uma reflexão acerca das dimensões culturais, simbólicas e
pedagógicas presentes na manutenção da injustiça. Observa-se que, enquanto a
crítica se limitar aos aspectos estruturais, a perpetuação da desigualdade
continuará encontrando apoio, inclusive entre os próprios oprimidos.
Com
base nas contribuições de Paulo Freire, é possível identificar que o processo
de dominação transcende ações físicas ou limitações de oportunidades,
alcançando a esfera subjetiva e cognitiva dos indivíduos. A internalização do
opressor leva o sujeito historicamente marginalizado a interpretar o mundo sob
a ótica daqueles que detêm o poder, naturalizando qualificações como “boa
gestão”, “ordem” e “eficiência” atribuídas a determinados grupos sociais, e
convertendo elogios ao antigo dominador em reflexos da opressão internalizada.
Frantz
Fanon aprofunda esta análise ao evidenciar que o colonizado tende a adotar
percepções impostas pelo colonizador, fenômeno que persiste mesmo após mudanças
institucionais. Segundo Fanon, uma descolonização autêntica requer
transformações no âmbito psicológico e simbólico, pois a liberdade
institucional não é suficiente para eliminar os efeitos profundos da
colonização.
Antônio
Gramsci esclarece a resiliência dessas ideias históricas através do conceito de
“senso comum”. O poder se consolida não apenas por meio da força, mas pela
disseminação de narrativas que passam a ser reproduzidas coletivamente,
inclusive pelos indivíduos mais prejudicados por elas, transformando
construções históricas em opiniões pessoais aparentemente autônomas.
Pierre
Bourdieu denomina esse fenômeno de violência simbólica: uma forma de dominação
caracterizada pela imposição de critérios que sustentam a desigualdade sem
necessidade de coerção explícita. Dessa maneira, recursos, infraestrutura e
investimentos continuam sendo direcionados a poucos, enquanto resultados
desiguais são erroneamente interpretados como fruto de mérito individual.
Nesse
contexto, torna-se fundamental questionar as bases simbólicas da dominação para
promover uma transformação efetiva das relações sociais. Alterações
legislativas e a ampliação de oportunidades só serão plenamente efetivas se
acompanhadas da revisão dos paradigmas que fundamentam a desigualdade no
imaginário coletivo. O desafio reside na reconstrução de significados, na
contestação de narrativas cristalizadas e na promoção de uma educação voltada
ao desenvolvimento da consciência crítica.
Somente
quando as perspectivas dos grupos oprimidos deixarem de ser condicionadas pelas
visões dos opressores será possível avançar em direção a uma justiça social
autenticada por quem historicamente foi afetado por ela. Esse processo demanda
enfrentamento dos padrões vigentes e comprometimento com a construção de novas
formas de pensar e sentir, estabelecendo as bases para uma verdadeira
emancipação.
Essas
considerações podem ser aplicadas a múltiplos contextos cotidianos e
profissionais.
Referências Bibliográficas
FREIRE,
Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
FANON,
Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
GRAMSCI,
Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
BOURDIEU,
Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

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