A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica, do Professor Florestan Fernandes completa 50 anos.
Na Nota Explicativa da 2ª. edição (utilizada como base para o presente texto), Florestan Fernandes explica que o livro foi redigido em dois momentos distintos, a primeira parte “As Origens da Revolução Burguesa” e a segunda “A Formação da Ordem Social Competitiva” em 1966. Para o autor, o ensaio deveria ser uma resposta intelectual à situação política que se instalou no país a partir do golpe militar de 31 de março de 1964. Dessa forma, o autor buscou explicar as especificidades da burguesia nacional e os processos que derivaram da formação da sociedade de classes antagônicas e o choque entre os sistemas estamental e competitivo.
As
partes escritas em 1966 seguem a linha do tempo tradicional. A Independência do
Brasil (1822) e a Proclamação da República (1889) criaram as condições para as
transformações sociais modernizantes que estavam represadas pela combinação do estatuto
colonial, escravismo e grandes latifúndios dedicados a monoculturas para
exportação. O rompimento da condição colonial e, a consequente autonomia
política produziu uma “situação nacional” capaz de desenvolver o comércio e a
urbanização, potencializar o Estado e, dessa forma abrir o caminho para a
modernização do país.
Entretanto,
a manutenção do sistema escravista (até 1888), causou a polarização do país entre
a estrutura dependente e heteronômica, cuja expressão era o modelo agrário
exportador, e a dinâmica autonomizante - centrada no crescimento urbano e do mercado
interno.
O
autor observou que a burguesia brasileira, numa relação simbiótica com essa estrutura,
se organizou como estamento, grosso modo, ideológico e econômico, e não como
classe, situação que somente foi rompida (parcialmente) com a chegada dos
imigrantes e com o estabelecimento dos barões do café na fronteira agrícola.
Analisando
o contexto que resultou no golpe militar de 64, Florestan avaliou que existiram
pressões “de fora para dentro, com a necessidade de garantir tantos os capitais
externos, quanto as suas empresas instaladas no Brasil; a pressão interna da
população, trabalhadores e proletariado; e, a pressão da intervenção direta do Estado”.
Essa
três formas de pressão, resultaram numa contrarrevolução auto defensiva, que
buscou a manutenção do status quo.
E, dessa forma, fez com que a burguesia nacional se aproximasse ainda mais do
capital internacional; reprimisse com violência a ameaça operaria e popular; e,
transformasse o Estado num instrumento
exclusivo da burguesia.
Assim,
foi através do golpe militar que a burguesia brasileira mostrou a sua organização
plena e coletiva, participando ativamente de um movimento com característica ditatorial
para garantir e potencializar os seus poderes.
Florestan
empregou o conceito de “revolução burguesa” como princípio investigativo da
origem, natureza e dos desdobramentos do capitalismo no Brasil.
Com
o fim do escravismo e a consequente introdução do trabalho assalariado e a
consolidação da “ordem econômica competitiva”, no final do século XIX, não foram
capazes de liberar completamente as potencialidades da racionalidade burguesa.
A rigor, promoveram a acomodação de estruturas econômicas antagônicas, gerando
uma sociedade híbrida e uma conformação social, o “capitalismo dependente”,
marcadas pela coexistência e interdependência do arcaico e do moderno.
Embora
houvesse a modernização da base
produtiva, isso se deu com a consolidação das condições favoráveis de
acumulação originaria da colônia, e assim, com a burguesia estamental
conservadora, fortalecida pelo golpe, perdeu-se a oportunidade de uma
modernização efetiva do país.
Em
função de críticas dos pares que tiveram acesso a essa duas partes, Florestan
confessa, ainda na nota explicativa da 2ª. edição, que desanimou e desistiu de
escrevê-lo, voltando-se para as atividades acadêmicas entre 1967 e 1972.
Entretanto,
graças ao apoio, em particular, ao ”incentivo entusiástico” de sua filha, a
professora Heloísa Rodrigues Fernandes, ele retomou os planos iniciais,
reformulou-os, atualizando as suas análises e, escreveu a terceira parte
“Revolução Burguesa e Capitalismo Dependente”, composta pelos capítulos 5, 6 e
7, em 1974, durante a ditadura, dez anos após o golpe militar. A primeira
edição enfim, foi publicada em 1975 pela Zahar Editores.
Como
subsídio a quem interessar-se pela obra, o autor considera ser essa parte, a mais importante da sua contribuição teórica nas
análises do desenvolvimento do país.
Por
certo, nessa última parte, Florestan Fernandes reformulou e complementou as demais,
progredindo no acompanhamento histórico anterior, que se detinha na abolição do
escravismo, até o presente, trazendo alterações relevantes de sentido ao
processo histórico.
Dessa
forma, o conceito de “capitalismo dependente” passou a ser determinado pela
associação da burguesia nacional com o capital internacional, alterando-se a
importância da dinâmica do capitalismo mundial, demarcada pela expansão dos três
tipos de capitalismo que ocorreram na história: emergência e expansão do
mercado capitalista moderno (1808 - 1860), emergência e expansão do mercado
capitalista competitivo (1860 - 1950) e emergência e expansão do mercado
capitalista monopolista (1950 -…).
Para
Florestan, no Brasil o desenvolvimento capitalista teve repercussões diferentes
nas fases que marcaram a evolução interna do capitalismo, como: a ruptura com a
associação dependente, em relação ao exterior; a desagregação completa do
antigo regime e de suas sequelas ou, falando alternativamente, das formas
pré-capitalistas de produção, troca e circulação; e a superação de estados
relativos de subdesenvolvimento e à extrema concentração social e regional
resultante da riqueza.
Pode-se
dizer que, o desenvolvimento capitalista foi conduzido e estimulado socialmente
pela classe dominante. Ao falar da importância do mercado capitalista,
Florestan aponta o envolvimento da economia interna com o mercado mundial, onde
esse novo mercado mudaria o Brasil para um crescimento acelerado, permitindo
uma conquista no comercio internacional.
Por
meio da relação com as cidades e populações, o mercado capitalista ganhou força
no crescimento interno. O crescimento do mercado capitalista moderno favoreceu
o comercio nacional, as cidades passaram a aumentar o comercio interno e a
produção, no modo escravista. Assim, criou uma economia articulada na sociedade,
havendo mecanismos de desenvolvimento com capacidade para crescimento por um
longo período de tempo.
Sobre
a emergência e expansão do mercado capitalista competitivo, Florestan discorre
sobre a articulação do capitalismo moderno com o capitalismo competitivo, e a
importância para a formação desse último.
A
revolução burguesa teria conduzido o Brasil, portanto, à transformação
capitalista, mas não à esperada revolução nacional e democrática, haja vista
que não houve a ruptura com o passado colonial.
Entretanto,
a implantação do capitalismo numa estrutura
colonial resulta numa sociedade
específica burguesa “a brasileira”, que não consegue romper com os poderes vigentes, transforma-se em oligarquia, mantendo
enraizados o patrimonialismo e o patriarcalismo
colonial. De certa forma, isso foi explicitado pela ditadura militar, na
qual a burguesia nacional optou por uma via repressiva e antidemocrática para
não correr o risco de perder os poderes que tinha estabelecidos.
Dessa
forma, a burguesia mercantil urbana não conseguiu romper com os “poderosos” do
passado, se consolidando à sombra do antigos senhores ruralistas e coronéis.
Essa nova configuração embasada num passado arcaico tornou a burguesia,
subordinada, incapaz de pensar em uma saída nacional.
A
ausência de uma sucessão de acontecimentos de impacto, de uma revolução
propriamente dita, não impediu o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, mas
ditou-lhe um ritmo próprio e uma condição particular. A ideia de revolução
burguesa presta-se assim como uma luva para determinar as etapas do processo e,
sobretudo, para compreender a modalidade de capitalismo predominante no país.
A
monopolização do Estado pela burguesia – tanto econômica, como social e
política – estaria na raiz do modelo autocrático, da “democracia restrita” que
marca o século XX brasileiro, e que grosso modo, permanece até hoje.
Entretando,
segundo Florestan seria um erro grave atribuir a esse diagnóstico alguma forma
de determinismo. O duplo caráter dos conceitos, as contradições que Florestan
detecta a cada passo, em suma, a dialética como método deixa o campo livre para
a ação histórica dos agentes e das classes sociais.
Certamente,
“A Revolução Burguesa no Brasil”, passou rapidamente de uma tentativa de
explicar as origens e os fundamentos do Estado autoritário, a um dos livros clássicos
da sociologia histórica brasileira, equiparando-se em importância a obras como “Casa-grande
& Senzala – Formação da família brasileira sob o regime patriarcal” (1933),
de Gilberto Freyre; “Raízes do Brasil” (1936), de Sérgio Buarque de
Holanda; “Formação Contemporânea do Brasil” (1942), de Caio Prado Júnior. e “Os
donos do poder - Formação do Patronato Político Brasileiro” (1958), de
Raymundo Faoro.
Fundador
da sociologia crítica no Brasil, o
autor se ocupou das relações, processos
e das estruturas sociais, utilizando como fundamentos o materialismo dialético
e o marxismo. Teve uma preocupação constante com a sua atuação política,
principalmente em temas como a educação popular e a responsabilidades social e política
do intelectual. Florestan encerrou o ciclo de interpretações gerais do país, fornecendo,
a demarcação para uma série de estudos pontuais posteriores que abordaram
tópicos decisivos como a resistência dos “de baixo” antes e durante a
emergência das classes, as alterações do estatuto das nações no sistema-mundo
ou as rupturas no padrão de acumulação no capitalismo.
“A
Revolução Burguesa no Brasil”, de Florestan Fernandes, oferece análise
aprofundada da gênese e consolidação do capitalismo dependente brasileiro,
sinalizando limitações e contradições deste processo, o papel da burguesia
nacional e a permanência de traços autoritários e oligárquicos. Constitui
referência fundamental para compreensão das especificidades históricas e
sociais do Brasil ante o capitalismo mundial.
Florestan
Fernandes faleceu no dia 10 de agosto de 1995, em São Paulo.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
FERNANDES,
Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: Ensaio de Interpretação Sociológica.
2ª. ed. Zahar Editores. Rio de Janeiro, 1976.
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