Pular para o conteúdo principal

E fez-se o caos

Osmar Santos comanda o espetáculo na Sé paulistana por competência e fé política - Imagem: Fernando Santos/Folhapress


A imprensa não pode ter senhores, domínios, posses ou possessões. Deve servir para publicar o que o que se fala, refletir o que se publica, aprofundar o que se opina sobre o publicado e ampliar TODAS as opiniões sobre o dito e o refletido. Nesse sentido, sem dúvida, é de comemorar que até o fim de outubro, as edições semanais de CartaCapital estarão abertas a todos os leitores no site www.cartacapital.com.br.


Leia e compartilhe com quantas pessoas quiser, depois disso, assine. Manter a imprensa livre é necessário nos momentos caóticos como vivenciamos hoje, no Brasil e no mundo.


Abaixo reproduzo o Editorial da edição 1229, escrito por Mino Carta, o diretor de redação, publicado em 06/10/2022:

 

E fez-se o caos

O povo brasileiro tratou de esquecer o evento mais empolgante da sua história, a campanha das Diretas Já

O Brasil soçobra em um mar raso de erros, lacunas, pecados. Na sua própria incapacidade. Na ausência de líderes capazes de abrir os olhos e a consciência do povo. Este é a primeira vítima de tanto abandono ao seu destino de ignorância e miséria. Há quem suponha que uma forte vontade democrática leve os eleitores, tão frequentemente e estupidamente festeiros, a formar filas nas bocas das urnas, quando o resultado do pleito está longe de espelhar impulso cívico. Voto útil houve, mas a favor de Jair Bolsonaro, o energúmeno demente, de passado parlamentar inexoravelmente indicativo de sua índole malsã.

Na ausência de líderes, criou-se o caos. Fosse autêntica a vocação democrática, um pleito presidencial aconteceria em seguida ao impeachment de Dilma Rousseff e a entronização de Michel Temer, corrupto até a medula, como é do conhecimento do próprio cais do porto de Santos. Muito simbólico aquele golpe perpetrado pelos próprios poderes da República, conluiados na tarefa os integrantes daquelas casas, com exceção de Alexandre de Moraes.

Na qualidade de presidente do TSE, além de togado pelo STF, cumpriu com diligência e senso de responsabilidade o seu papel. Os demais continuam aboletados nos seus assentos, conforme verificamos nas transmissões diárias pela televisão, fato inédito na história das sentinelas da Constituição mundo afora. Trata-se de casas escondidas dos olhos do povo a cumprir seus trabalhos em indevassável silêncio. Aqui não, apreciam a exibição no vídeo, envoltos nas suas asas de morcego.

No golpe contra Dilma, acrescentemos os congressistas unidos em um Centrão de péssima lembrança, enquanto Lula, ao assumir a Presidência, guarda o vezo deplorável de recorrer à conciliação das elites. Já lhe perguntei que elites são estas, em um país onde a população é brutalmente dividida entre poucos ricos, desmesuradamente ricos, e milhões e milhões de pobres, impeditivo fatal da democracia autêntica no Brasil, o segundo mais desigual do mundo. (grifo nosso) 

Em primeiro nesta lamentável classificação fica a África do Sul, menos desiguais os demais países africanos.

Já houve líderes verdadeiros. Sabiam o que estavam a fazer e conheciam a fundo as dificuldades da empreitada. Foram em frente com a coragem e a disposição de agir a qualquer custo. O derradeiro movimento popular capaz de lotar praças e avenidas foi a campanha das Diretas Já. Ali, em último lugar na fila das autoridades ficava Tancredo Neves. Acabava de regressar de uma visita ao mosteiro de Caraça, viagem de carro de seis horas, passadas ao lado do general Golbery do Couto e Silva, ideólogo do golpe de 1964 e criador do calendário da distensão que o ditador Ernesto Geisel tentou obstar, sem sucesso.

Diga-se que o evento das Diretas Já reuniu na Praça da Sé, em São Paulo, nada mais, nada menos, 500 mil pessoas, e outra multidão fluvial na Avenida Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, da estação ferroviária à Candelária, a representar o momento mais expressivo na história do povo brasileiro. Havia também uma elite da cultura representada por pensadores do porte de Raymundo Faoro, Celso Furtado e Gilberto Freyre, e pela onipresença de Euclides da Cunha. E ainda apoiada por poetas da escrita, de Machado de Assis a Guimarães Rosa. País diferente era o de então.

Quando o doutor Ulysses deu a largada da Campanha e André Franco Montoro era governador de São Paulo e Leonel Brizola do Rio de Janeiro, graças a uma etapa da chamada distensão, fui convocado pelo líder de uma oposição a englobar no MDB todos os inimigos do regime. Secundado por Montoro, e sabedor da minha boa relação com Lula, chamou-me para convencer o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema para assumir seu lugar no palanque erguido em frente à Catedral, na primeira manifestação marcada na praça paulistana da Sé para 25 de janeiro de 1984, dia do aniversário da cidade. E no palanque haveria de caber também o cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, verdadeiro pastor de muita fibra e coragem.

No dia 4 de janeiro, almocei com Lula e ouvi dele: “Claro que topo”. E topou. Até então, os petistas esmeravam-se no patrulhamento de quem não rezava por seu catecismo, mas, 20 dias depois, as bandeiras vermelhas despontavam por sobre a multidão. O confronto entre aqueles momentos e os atuais é desolador.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Paradoxo da Crítica Social: Uma Conversa Real sobre Dominação e Consciência

  Como Paulo Freire, Frantz Fanon, Antônio Gramsci e Pierre Bourdieu contribuem para a compreensão da persistência da injustiça Recentemente, ao realizar compras em um supermercado, fui atendido por um rapaz, refugiado cubano, que reside em Curitiba há aproximadamente seis meses. Iniciei uma conversa sobre as condições de vida em Cuba, e ele relatou algumas das dificuldades enfrentadas, que o levaram à decisão de imigrar. Abordei a complexidade do embargo econômico norte-americano vigente há mais de 60 anos, expressando minha percepção de ser este um obstáculo significativo ao progresso social cubano. O interlocutor, entretanto, pontuou que o embargo funciona como justificativa utilizada pelo governo local para encobrir sua falta de alternativas eficazes ao desenvolvimento da ilha. Esse diálogo motivou uma reflexão acerca das dimensões culturais, simbólicas e pedagógicas presentes na manutenção da injustiça. Observa-se que, enquanto a crítica se limitar aos aspectos estruturais...

01/01 - Dia Mundial da Paz

Hoje é o Dia Mundial da Paz, instituído em 1968 pelo Papa Paulo VI, é celebrado no primeiro dia do novo ano. Que em 2026 tenhamos a inteligência de entender que não existe um caminho para a Paz, a Paz entre todos é o caminho! Feliz Ser Humano Novo: reflexão para o ano novo e mais que isso para uma vida nova! Mesmo vivendo mil anos, não se encontrará um ser humano perfeito. Somente seres que buscam o aperfeiçoamento e a evolução, uns mais outros menos, conscientes ou inconscientes, uns buscando a evolução na matéria outros no espírito, de importante: procuram evoluir. A evolução do homem é a sua maior missão nessa jornada terrena, acredito nisso. Por mais estranho que soe, acredito, também, que os seres que não estão voltados à espiritualidade, encontram-se também em processo evolutivo, mas inconscientes, identificam na acumulação de bens, a evolução. O homem tem a capacidade de modificar o meio ambiente, de modificar-se, e de modificar o seu próximo, embora, geralmente, estejam...

Sequestro de Maduro e a nova ordem mundial

     Ao analisar as razões por trás do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, é fundamental levar em conta o cenário geopolítico atual. Recentemente, o governo de Donald Trump lançou sua estratégia de segurança nacional, trazendo mudanças importantes nas prioridades do país. Um ponto central é o chamado "Corolário Trump" da Doutrina Monroe, que recomenda manter a América Latina longe da influência de outras potências estrangeiras, leia-se Rússia e China. Segundo a imprensa internacional, o governo venezuelano relaciona as ações militares dos EUA, especialmente os ataques a embarcações supostamente envolvidas com tráfico de drogas, a uma tentativa de pressão política e econômica. Para o governo venezuelano, a intenção norte-americana é provocar uma mudança de governo e garantir acesso irrestrito às reservas de petróleo locais, as maiores do mundo, refletindo anos de tensão entre Washington e Caracas. Trump declarou que vai governar a Venezuela e permitir a exploração d...